Alguns dos maiores escritores mundiais foram, em certa parte da vida, jornalistas. Está aí uma coisa que me atrai, me impulsiona, me admira e também me assusta. É fato que uma coisa está completamente ligada à outra, salvo a questão da ficção, e essa literatura misturada com jornalismo é a que mais me interessa. Gabriel García Marques, Ignácio de Loyola Brandão, Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, Euclides da Cunha são alguns nomes de escritores que tiveram que ganhar o pão através do jornalismo antes de se consagrarem. E também Clarice Lispector.
De expressão triste, sobrancelhas arqueadas, olhos pequenos, olhar vago porém incisivo. “Caótica, intensa, completamente fora da realidade da vida” – essas são as palavras com que Clarice se auto-caracteriza quando jovem escritora. No último dia 09 de dezembro, completou 30 anos da morte da escritora mais enigmática da literatura brasileira.
Dois documentos – além de suas próprias obras – revelam, a meu ver, quem era Clarice Lispector: o livro “Correio feminino” (Editora Rocco, 160p. R$42,50) e a entrevista concedida, poucos meses antes de sua morte, ao jornalista Julio Lerner em 1977 no programa “Panorama” da TV Cultura.
Nesta entrevista, a revelação de traços da personalidade as escritora, que pode ser identificada em sua literatura muitas vezes auto-biográfica, de uma Clarice já cansada de si mesmo. Tinha acabado de escrever “A hora da estrela” – seu maior sucesso.
Parte 1
“Sou uma escritora amadora. Escrevo quando quero. Faço questão de não ser uma profissional, para manter minha liberdade.”
“Tem períodos de produzir intensamente e tem períodos hiatos, em que a vida fica intolerável.”
Parte 2
“Quando me comunico com adultos, na verdade estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma. Aí é difícil.”
“O adulto é triste e solitário. A criança tem a fantasia solta.”
“Eu escrevo sem a esperança que o que eu escreva altere qualquer coisa.”
Parte 3
“Me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato.”
“Eu escrevo simples, não enfeito.”
Clarice jornalista
Entrei em contato mais profundo com Clarice Lispector no primeiro ano de universidade. Já conhecia pouco de seus escritos devido às obras exigidas para o vestibular, mas confesso que não me sentia tão impressionada com sua literatura. Até que eu conheci a mulher por trás de suas obras, e daí sim suas histórias ficaram interessantíssimas.
Mas até então só se fala da Clarice Lispector escritora – rótulo que ela mesma repudia. Nunca tinha lido a Clarice jornalista – ofício que ela praticou durante anos como forma de sustento, antes de seu primeiro livro ser publicado até seus últimos dias de vida.
Interessada nessa literatura, adquiri (e também ganhei de presente) o livro “Correio Feminino”, uma seleção de textos da escritora publicados em colunas e suplementos femininos da imprensa brasileira durante as décadas de 50 e 60. São artigos sobre beleza, culinária, moda e medicina, feminismo e feminilidade, conselhos sobre a emancipação da mulher – um retrato de hábitos e tendências da mulher brasileira das décadas de 50 e 60.
Minha surpresa veio nas primeiras páginas: a enigmática escritora dá lugar a conselhos de beleza, de como conquistar um homem, como uma mulher deve se comportar perante a sociedade, etc. Mas depois é notável como a personalidade de Clarice se coloca nas entrelinhas dos textos. Já no prefácio, Aparecida Maria Nunes, organizadora do livro, diz que esta pode até ser considerada uma “literatura menor”. Mas eu não acho. Mostra uma Clarice diferente, mostra sua simplicidade de escrita (como ela mesma diz no final da entrevista), evidencia seus sentimentos, reafirma seu brilhantismo, revela a essência mulher na escritora – e a luta dessa mulher sozinha para se sustentar.
Como diz Gastão Moreira na apresentação da entrevista/documentário, “não há como não se render a sua escrita indefinível”.
* “Flor-de-lis” é a tradução literal de “Lispector” para o português, como afirma a própria Clarice no começo da entrevista citada acima.
Clarice sempre me pareceu depressiva. Há pouco tempo o Canal Brasil passou umas entrevistas com ela: parecia ser alguém muito angustiada com tudo, inclusive com ela mesma. Em alguns de seus livros também é possível sentir isso. Contudo, sou fascinado por sua forma de escrever, seja em prosa ou verso.
Gostei muito dessa postagem. Voltarei depois para ler mais. Um abraço!
Pois eu amo Clarice e amo as coisas que Ana Bürguer escreve…
um beijo!
Pois é.. Clarice é tão bom que dá vontade de ter duas cópias iguais de cada livro dela, você não acha??
Beijos!
flor de lis! lindo nome!
http://delirika.wordpress.com/2007/12/23/lis/
(homenagem em meu blog a vocês, lindas)
pelos buracos que a escrita tradicional nao consegue abarcar, podemos ver despontar a escrita feminina, essa flor agridoce que diz mais aos ouvidos do que à língua!