No final de semana passado, assisti a uma daquelas comédias bem cretinas, mas com uma teoria muito boa: enquanto os casais de maior Q.I. planejam demais terem filhos e acabam até não os tendo (porque o tempo passa, o relógio biológico desanda, o casamento dá divórcio, etc.), os casais com menos Q.I. vão copulando e copulando e tendo filhos e mais filhos de baixo Q.I., que não tem educação nem instrução, casam cedo e começam a ter filhos cedo, e mais filhos, e mais filhos, que tem Q.I. ainda mais baixo, e assim por diante, até que em 2500 o mundo estará repleto de idiotas. “Idiocracy” será responsável por fazer você repensar o futuro do planeta.
Daí, quinta-feira, a Folha de SP, em seu caderno Equilíbrio, deu uma matéria com o título “Sem descendentes – Preocupação com as mudanças na vida a dois e com a carreira levam cada vez mais casais à decisão de não engravidar”, que diz, basicamente, que cresce o número de casais que optam por não ter filhos. Só que todos os casais entrevistados na matéria são de classe alta (financeira e intelectualmente falando): uma produtora cultural e um escritor, uma advogada e um arquiteto, uma dentista e um oficial de justiça. Numa parte da matéria, há a justificativa de uma terapeuta familiar para o quadro: “Cada vez mais as pessoas têm consciência do esforço que significa criar um filho, da dedicação e dos custos econômicos e emocionais envolvidos”.
Agora pense. Deixe o discurso hipócrita de lado e analise as probabilidades. Se os casais com maior renda, maior nível de educação e maiores condições de ter filhos estão optando por não tê-los, enquanto os casais de menor renda, menor educação e sem quase nenhuma condição tem oito filhos cada, que seguirão os mesmos caminhos dos pais já que também não terão educação nem instrução nem preparação, daqui algumas centenas de anos a chance desse último grupo ter povoado e dominado todo o planeta é bem grande. Assustado? Eu também.
Claro que essa é uma visão bem pessimista e que isso só acontecerá se absolutamente ninguém fizer absolutamente nada para mudar esse quadro de ignorância coletiva. Mas que é possível, é. Se todo mundo passar a só ouvir funk e deixar de ouvir os clássicos da MPB, se todo mundo estudar em colégios públicos (*considerando o sucateamento do sistema público de ensino) e comprarem diplomas do terceiro grau, se filmes como “Jogos Mortais” forem sucessos absolutos de bilheteria enquanto documentários e filmes considerados cult são deixados no esquecimento, se todo mundo só ver a novela das oito e parar de ler livros, jornais, revistas e até folheto de supermercado, se ninguém mais souber quem foi Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Clarice Lispector, se nossos queridos governantes não pararem de ‘corruptar’ e tomarem providências a favor da educação, chegaremos numa “Idiocracy” bem rápido!
Uma das partes do filme retrata uma coisa bem idiota, mas muito significativa: em 2500, a ignorância da população, totalmente influenciada pelo marketing da tevê, pára de consumir água e passa a só beber um composto energético, estilo Gatorade. E eles estendem isso às plantações, já que água só é usada pra limpar privada. O resultado não poderia ser outro: as plantações morrem e o solo fica seco, ameaçando (?!?) o futuro da humanidade.
Assista. É de se fazer pensar e refletir. E também dar boas risadas.
Ai Ana!!!Como é que vc me apavora desse jeito?!?Eu, que não queria ter filhos, me senti na obrigação de colocar uns 10 no mundo pra ver se isso tudo não acontece!!!hahahahahahahaha
Um beijo, minha irmã de nome!!!rs
A tua linha de raciocínio é lógica, mas um pouco escrota, cá entre nós. A pessoas têm direito de ter filhos. Isso não quer dizer que estão necessariamente destruindo o planeta. Você impõe uma verdade absoluta em termos de gostos literários, cinema e ideologias. Um contradição terrível. Viva a pluralidade e diversidade e direito das pessoas não cuspirem no lixo e no luxo da intelectualidade. Viverem o que sentem, sem intolerâncias. Desculpe, é o que penso, sem ofensas.
Paulo,
Não estou “impondo” nenhuma verdade absoluta. Gostos diferentes significam pluralidade de pensamento e, portanto, são sim necessários.
A questão é que gosto é uma coisa e cada um tem o direito de ter o seu. Já cultura e conhecimento é outra e todos deveriam ter. Pode-se não gostar de Machado de Assis ou de MPB, mas tem que pelo menos saber o que é, quem foi, quais as principais obras.
E a linha de raciocínio segue a realidade em que vivemos: sem condições básicas de saúde, moradia e educação, que futuro você espera que iremos ter daqui 500 anos?
A possibilidade pode até te parecer “escrota”. Mas que é real, é.
Obrigada pelo comentário.
=)
Universalizar o conhecimento não significa um mundo melhor, Ana. Esse é meu ponto de vista. Talvez deixe um ou outro com menos espírito de culpa bem ao estilo: ó, fiz minha parte.
Um mundo mais “erudito” não vai desembocar em sociedades menos desiguais. Lembra do que fez o tal do Raskolnikov (fui ver como ser escreve…rssss) do Crime e Castigo? Matou pq se achava o último biscoito do pacote. Não fode.
Fazendo esse papel de advogado do diabo, acabo acreditando que vamos nos tornar mais selvagens a medida que sabemos. Talvez também o desequilíbrio de hoje produza um grau de equilíbrio maior. Talvez. O futuro é um porre. E esse papo também! :O) colegas de perto? não entendi.
Nooooossa! desculpe, viajei legal. Pois é, encontrei seu link lá, mas nem imaginava que vc era dessas sesmarias. bom saber, mas um motivo para frequentar o deixarstar. ;O) Curtir bastante o debate e os textos.
Minha única observação é quanto à frase preconceituosa constante neste texto:
(…)se todo mundo estudar em colégios públicos e (…)
Lamento informar, mas estudar em escola pública a vida inteira não significa em absoluto ser desprovido de cultura ou informação, acho que o texto para ser completamente justo deveria ser revisto.
Não levando em consideração este fator o texto é realmente bom.
O pior cenário é realmente assustador.
Olá Giordani,
Eu estudei em escola pública, fiz universidade pública e não quis, em momento algum, dizer que quem estuda em colégios públicos seja desprovido de conhecimento ou de inteligência.
Muito pelo contrário.
A minha crítica quer atingir os governantes, no que tange a falta de investimento em cultura nesse país. Claro que há exceções. Mas o sucateamento do ensino público é um fato que não pode ser esquecido.
Agradeço o elogio.
Ana Bürger